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Joias - fabrico - metal - Fechos

Desenhado em Rhinoceros/Rhinogold por Cristina Jorge











A ARTE NA JOALHARIA CONTEMPORÂNEA




A reflexão sobre a obra de arte Na joalharia, complementam-se os estudos de design com a educação artística. As teorias dos cursos de artes visuais contribuem para a formação da opinião crítica. Já as técnicas de prática são ensinadas através das obras dos grandes mestres, para que o aprendiz, a partir do seu ponto de vista, descubra o próprio caminho. O estilo é o modo como cada um dispõe elementos formais que criam a sintaxe da imagem, ou melhor, seu arranjo da linha, forma, cor, luz e sombra, textura e espaço. Todo profissional deve sempre se actualizar, pesquisando novos campos ligados à sua área, para aprimorar seus conhecimentos. A reflexão sobre a arte é filosófica, teorizando a experiência do poético na criação artística. Analisa-se uma obra de qualidade considerando as várias metodologias da história de arte: formalismo (aspectos formais), iconografia (temas da arte figurativa), marxismo (factores económicos e sociais), feminismo (condição da mulher), semiótica (símbolos e signos), biografia e autobiografia (vivência e expressão do artista), ou psicanálise (inconsciente do autor). A estética da jóia de arte A joalharia da antiguidade era representada por amuletos. A contemporânea é orientada por símbolos culturais e poéticos, de acordo com os desenvolvimentos em todos os sectores de arte que, por sua vez, provém dos processos de evolução do homem. Essencial na poesia, a metáfora é a linguagem das imagens. Símbolos e metáforas diferem, mas se interligam, ao evocar e narrar. Para se avaliar a estética de uma jóia, que lida com as questões das artes liberais, considera-se a essência do design, buscando por estruturas poéticas tanto na concepção, quanto na composição da peça, e por elementos metafóricos e/ou simbólicos significativos. Na joalharia, materiais alternativos são experimentados na medida em que reafirmam as intenções das mensagens artísticas. Os conceitos que deram origem à joalharia contemporânea enquanto a arte moderna se atém às convenções, a arte contemporânea transborda seus limites. Cubismo e surrealismo foram os principais movimentos da arte moderna no século XX. Mas na joalharia actual predominam desenvolvimentos modernos posteriores, voltados para clareza e objectividade, aqui resumidos: purismo teve no francês Le Corbusier (Charles-Edouard Jeanneret) seu precursor. O arquitecto publicou seu manifesto Após o cubismo, preconizando o retorno às formas mais simples reduzidas. Forma, linha e cor eram vistas por puristas como elementos de uma linguagem que não mudam de cultura para cultura, porque se baseiam em reacções ópticas invariáveis. Declaravam também que a máquina pode criar uma peça com planos tecnológicos, mas jamais produzirá uma obra de arte, já que não existe valor constante na tecnologia. De Stijl, movimento dos holandeses influenciados pela filosofia de Schoenmaekers, destacava a importância das cores primárias, da linha horizontal e vertical, como vemos nas obras de Piet Mondrian, imigrante americano em 1938. O termo “neoplasticismo” foi criado pelo pintor, para designar o austero estilo de abstracção geométrica, que considerava um ideal de harmonia universal. Construtivismo provém da arte abstracta e seus artistas passaram a abstrair a partir das formas geométricas, ao invés da natureza. Fundado por Vladímir Tatlin e Alexander Rodchenko, autores do manifesto Realista, entre outros, exerceram grande influência sobre a instituição Bauhaus da Alemanha, no que concerne a noção que faz prevalecer a importância da funcionalidade, em detrimento do decorativo, e que o artista, isso é, o designer, deve ocupar seu lugar ao lado do cientista e engenheiro, fundindo conteúdo e formas simples com modernos recursos tecnológicos. Arte cinética, termo usado pela primeira vez no manifesto Realista em 1920, só se estabeleceu entre as categorias reconhecidas de classificação crítica nos anos 50. Os artistas criam a impressão do movimento por meio da ilusão, enquanto os cinéticos fazem o oposto: produzem a ilusão através do movimento ritmado, que pode gerar ainda outra forma de volume sem massa no espaço. Arte conceitual refere-se a diversas formas e manifestações de arte. Aspecto comum a todas elas é o princípio aristotélico, afirmando que a “verdadeira” obra de arte não é o produto físico elaborado pelo artista, mas sim a “ideia” ou o “conceito”. Sendo assim, a “ideia” não precisa ser concretizada, bastando ser apenas uma atitude. Expressionismo abstracto compreendeu o movimento formal de arte abstracta que creditava ao desenho, a geração da imagem reconciliada com a técnica, e à pintura, a reafirmação da superfície plana da tela. Seus expoentes principais são o russo Wassily Kandinsky e, após a Segunda Guerra Mundial, o pintor armênio que morava em Nova Iorque Arshile Gorky e o americano Jackson Pollock, esse último inventor da Action Painting. Foi o primeiro desenvolvimento dos EUA que acabou influenciando pintores de diversos países europeus no final da década de 50 e ao longo dos anos 60.Minimalismo, inspirada na tendência da escultura abstracta norte-americana, buscou reduzir todos os efeitos expressivos a umas poucas categorias formais que, por sua vez, se integram ao espaço circundante. Sua impessoalidade é vista como uma reacção ao excesso de emoção no expressionismo abstracto. Os precursores da joalharia de arte contemporânea em curto prazo, as múltiplas ideias revolucionárias das artes visuais interferiram, marcando em definitivo, com suas novas descobertas, a arte tradicional da joalharia. A primeira grande mostra de jóias contemporâneas foi em 1961 no Goldsmiths’ Hall de Londres. Essa exibição deu impulso ao movimento de que o uso de recursos alternativos na joalharia não se traduz em insignificância artística. Verificava-se na época, quanto mais valorosa fosse uma gema, menos imaginativa e estética era sua cravação, visando fins lucrativos. O surgimento de algumas galerias só para jóias de arte foi oportuno, coincidindo com a atribuição de qualidades formais a essa joalharia, isto é, o artista-criador passou a ter sua autoria reconhecida. Foi inaugurado também em 1961 o primeiro museu de joalharia de arte em Pforzheim – o renomado Schmuckmuseum.. Anos 60Nos primeiros anos da década, pintores expressionistas abstractos americanos influenciaram o trabalho assimétrico e orgânico dos ingleses John Donald e Andrew Grima. Outros precursores desse período são: os alemães Klaus Ullrich, com o uso de ouro revenido nas suas jóias primeiro abstractas e depois geométricas, e Ebbe Weiss-Weingart, por suas texturas que enaltecem a utilização de recursos naturais; o escultor italiano Arnaldo Pomodoro, do movimento Informal, com seus relevos e elementos reduzidos a tensão mecânica que se transforma em tensão visual; os holandeses e artistas pop Gijs Bakker e sua mulher Emmy van Leerson, por suas jóias de dimensões macroscópicas, baseadas nos conceitos da Body Art que consideram o corpo um meio de comunicação; e a designer criativa, lapidadora de gemas com formas mais livres e autora de jóias, nascida na Áustria mas radicada na Inglaterra, Gerda Flöckinger, que deu o primeiro curso de joalheria experimental ministrado em escola de arte e fez a primeira exposição solo de jóias em 1971 no Victoria & Albert Museum. . Anos 70 Não há divisão entre as décadas, apenas a continuidade dos processos em desenvolvimento. Inaugurou-se no início dos anos 70 a famosa Escola de Joalharia Contemporânea de Pádua, fundada por Mário Pinton, Giampaolo Babetto e Francesco Pavan. Rejeitando símbolos conservadores, substâncias poveras, como os sintéticos, foram introduzidas na joalharia. A falta de ouro e outros materiais preciosos na Alemanha Oriental, fizeram com que seus artistas recorressem aos sintéticos e reciclados para compor suas peças, como ocorrera no período Art Nouveau e Déco. O público interessado passou a freqüentar ateliers e galerias. Diversos artistas tornaram-se célebres nessa época: o engenheiro alemão Friedrich Becker, que lançou nas suas peças a arte da cinestesia, fazendo com que as obras se movessem de acordo com os movimentos do usuário; o japonês Yasuki Hiramatu, por seu domínio da arte da ourivesaria e suas ideias singulares, como a alusão que fez ao “papel amassado” no ouro; o inventor alemão Peter Skubic, que ganhou sua reputação por dominar, mesclando com maestria, geometria e tecnologia; o casal inglês David Watkins e Wendy Ramshaw, com suas formas abstractas multicor, minimalistas e high-tech; o alemão Reinhold Reiling, construtivista influenciado pelo Tachismo, que foi um dos primeiros a transpor para a joalharia os preceitos das artes visuais; o suíço Othmar Zschaler, que, para compor suas jóias, sobrepõe várias camadas em ouro; o escultor italiano Bruno Martinazzi, por suas peças conceptuais ergonómicas, com caimentos perfeitos, que tratam das questões tridimensionais; e o alemão oriental Hermann Jünger, que redefiniu a joalharia de arte usando elementos de desenho e pintura coloridos por gemas, baseados nos ideais modernistas da Bauhaus. Várias obras suas poéticas, apresentadas em displays especiais, são montadas por quem as usa, de acordo com a ocasião.. Anos 80Esses anos são também conhecidos como: “a década do design”. Novas lapidações com formas inovadoras e geométricas suavizaram a joalharia minimalista que veio para ficar, tornando-se mais do que apenas uma tendência. Artistas-joalheiros tiveram a partir dessa data a oportunidade de participar de exibições internacionais, tais como a Ornamenta 1 e a Documenta 8, conhecendo melhor outras culturas. O sul-africano Daniel Kruger, por exemplo, utilizava gemas brutas na sua joalharia que surtiam mais efeito do que os materiais sintéticos e reciclados explorados por muitos no período. O alemão Manfred Bischoff usou elementos da arte grafite nos seus trabalhos, ao lado de referências da arquitectura e história de arte. A americana Arline Fisch desenvolveu suas peças a partir de noções de croché, tricô e tear, enquanto a inglesa Catherine Martin fez pesquisas sobre a arte milenar japonesa de trançar para se inspirar. Repensando o sentido da função da jóia, as obras no final dos anos 80 do alemão Gerd Rothman buscavam incorporar marcas pessoais do dono, tais como suas impressões digitais ou texturas de pele. Já Bettina Speckner, sua conterrânea, com seu Aide Memoire, criou através de registos em fotos, elos de ligação com as lembranças afectivas dos usuários. Técnicas tradicionais de ourivesaria foram reinterpretadas e reinventadas de tal forma que as mudanças no período modificaram em definitivo o rumo e os conceitos da joalheria contemporânea.. Anos 90As jóias das indústrias e grandes marcas passaram a se identificar cada vez mais com a moda, regida pelos atributos físicos dos materiais, em detrimento do estilo personalizado de design. Giampaolo Babetto, inspirado pelas proporções dos arquitetos Palladio e Mies van der Rohe (responsável pela famosa frase: “menos é mais”), exerceu grande influência sobre essa geração de artistas-joalheiros. Para o professor neoconstrutivista da Escola de Pádua, a jóia de arte deve poetizar a técnica, minimizando seus efeitos. Pessoas mais consciencializadas social e culturalmente sempre se encantarão com as obras de mestres, tal e qual: a alemã Angela Hübel, com seus anéis arrojados de conteúdos cognitivos; o casal alemão Tom e Jutta Munsteiner, com designs cleans criados por Jutta, a partir das gemas esculpidas artisticamente por Tom; o minimalista Robert Smit, com sua linguagem formal espirituosa, extremamente original; e o nascido em Marrocos, mas estabelecido na Alemanha, Michael Zobel, por suas inventivas técnicas de solda de ligas diversas, que criam novas possibilidades na joalharia, entre muitos outros nomes. Século XXIO novo milénio era antecipado como a era das linhas puras, da alta tecnologia. Mas fomos todos surpreendidos com o estilo rococó do neo-barroco. Artistas fazem releituras do desenvolvimento do passado remoto e recente para fugir das dificuldades do presente. Computador e globalização, por exemplo, derrubando fronteiras, passaram a aumentar a quantidade, mas não necessariamente a qualidade de vida e informação. No entanto, a arte só evolui através da experimentação e pesquisa comprovadamente investigativas. Todo novo conhecimento adquirido por um artista amplia sua visão criadora e poética. Modificações que ocorrem na sociedade e nos meios da academia e produção são reflectidas também na joalharia de arte, não importa qual seja o material explorado. Os artistas-criadores que se destacarem nesses primeiros anos do milénio só se tornarão conhecidos no final da próxima década, quando tiver transcorrido o tempo necessário para uma avaliação mais precisa. Mas já constatamos que símbolos capitalistas de status deixaram de ser objectos de desejo dos consumidores, que agora buscam por identificação com resgates mais afectivos. A ênfase hoje no cenário da jóia ainda está na desgastada fórmula de sensualidade, de formas insinuantes e cores fortes, uma vez que o investimento para se inovar, além de ser maior, é mais arriscado. Quaisquer que sejam os caminhos do futuro, a obra conceitual será sempre uma fonte de prazer, porque a arte se relaciona com os estados psicológicos do homem: seus sentimentos, seu gosto, sua sensibilidade. Na arte, o poder de fascinar e inspirar tem que inventar o por fazer e como fazer de forma original, isto é, sem apelar para as releituras.


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Adaptado de http://www.katesjewelry.com.br/artigo2.htm